Mágoa
Bólam leves, desatentos,
Meus pensamentos de mágoa
Como no sono dos ventos
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.
Bóiam como folhas mortas
À tona das águas paradas.
São coisas vestindo nadas.
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.
Sono de ser, sem remédio,
Vestigio do que não foi,
Leve mágoa, breve tédio,
Não sei se pára, se flui;
Não sei se existe ou se dói.
Fado Das Sedes
Há muito que tenho sede,
Sede que me faz gritar
A esmola da gota d'água
Que ninguém tem p'ra me dar.
Há em mim sedes de Agosto
Da agua que não correu,
Das flores que secam nos vales,
Sede que a sede me deu.
Tenho a sede das searas
E das crianças sem mãe.
Tenho sede (tanta sede!)
De agua que nunca vem.
Eu tenho a sede das fontes
Que correm para ninguém.
Tenho sede de outras sedes
Da sede que a sede tem.
Abandono
Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar
Tão longe que o meu lamento
Não te consegue alcançar
E apenas ouves o vento
E apenas ouves o mar
Levaram-te a meio da noite
A treva tudo cobria
Foi de noite numa noite
De todas a mais sombria
Foi de noite, foi de noite
E nunca mais se fez dia.
Ai! Dessa noite o veneno
Persiste em me envenenar
Oiço apenas o silêncio
Que ficou em teu lugar
E ao menos ouves o vento
E ao menos ouves o mar.
|