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Corpo Iluminado

EM DIRECÇÃO A UM NOVO FADO

Aos 28 anos, Cristina Branco acaba de lançar o seu quinto álbum, numa carreira iniciada apenas em 1997. «Corpo Iluminado», o melhor dos seus discos até ao momento, revela uma fadista amadurecida.

Amadurecida na voz, que evoluiu bastante num curto espaço de tempo: ela soube preservar a frescura que os seus primeiros álbuns revelavam, mas acrescentou-lhe uma nova coloração nos registos baixos, que combina na perfeição com as atmosferas dos poemas que canta, transitando sem dificuldade da melancolia para o júbilo, da tristeza da saudade para a alegria do encontro.

Amadurecida na escolha dos poemas, já que as canções formam um bloco coerente, passando por «Corpo Iluminado» alguma da melhor poesia que já se escreveu em Portugal, e onde as questões existenciais próprias do fado são abordados no tom certo, sem falsos fatalismos.

Amadurecida, finalmente, na música, já que as composições de Custódio Castelo continuam a abrir novos horizontes ao fado. Ouça-se «Corpo Iluminado», com a sua sombria e misteriosa música, parecendo acompanhar as interrogações da fadista. Ou escute-se «Musa», com a sua frescura aparente, onde o guitarrista transporta para o instrumento as dificuldades do processo criativo.

É tudo isto que faz a originalidade de Cristina Branco, e que a coloca num lugar ímpar do novo fado, que introduz o perfume da modernidade no corpo da tradição. Uma tradição que Cristina não desmerece: muitos dos fados que aqui canta são clássicos, como «Meu Limão de Amargura» ou «Meu Amor É Marinheiro», e o seu próprio grupo de músicos apresenta a formação canónica, com Custódio Castelo na guitarra portuguesa, Alexandre Silva na viola e Fernando Maia na viola-baixo. Mas também uma modernidade de que Cristina não abdica: nas composições de Custódio Castelo, nas palavras de poetas ainda vivos, na escolha de músicos convidados. Simbolicamente, tradição e modernidade encontram-se no último tema do álbum, «Molinera», cantada «a capella» em mirandês, um dialecto do norte de Portugal que só recentemente foi reconhecido em termos oficiais pelo estado português.

Tudo isto transforma «Corpo Iluminado» num disco incontornável da carreira de Cristina Branco, reflectindo a qualidade da sua música e solidificando o seu estatuto entre as maiores vozes do novo fado português.


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