CRISTINA BRANCO
Do Fado espera-se que traduza o sentimento trágico da
vida: o sofrimento, a saudade e a impotêntia perante o destino.
A tradição, já longa, do fado, depositou algumas
'fórmulas' para dar voz a esses sentimentos, cuja invariável
repetição tem conduzido à delapidação
desse tesouro expressivo, ao seu inevitável esvaziamento
emocional, ao sobrevoar das palavras pelos cantores. O caminho de
Cristina Branco é outro.
Sem procurar uma ruptura ingénua com a tradição,
antes procurando o que nela há de melhor (oiçam se
alguns dos "clássicos" por ela cantados), Cristina
Branco revitaliza essa tradição pela autenticidade
da sua interpretação. A voz e a sensibilidade interpretativa
de Cristina Branco procuram o difícil convívio dos
textos com a musicalidade do fado, tentando encontrar um caminho
expressivo que torne música e letra inseparáveis no
sentir.
Nascida e criada muito longe das casas de fado de Lisboa, nada
na vida de Cristina Branco indicava que o seu destino seria o fado.
Como acontece com quase todos os jovens portugueses nascidos depois
da Revolução dos Cravos, os seus interesses musicais
passavam pela canção popular, pelo jazz, pelos blues,
pela bossa nova, mas não pelo fado. No seu entender, esse
era o género de uma outra geração mas as suas
certezas ficariam definitivamente abaladas no dia do seu 18°
aniversário, quando o seu avô escolheu para prenda
o álbum Rara e Inédita, de Amália Rodrigues,
a mais importante voz de Portugal do século XX.
De repente, Cristina Branco descobriu toda a emoção
que o género podia conter, na sua íntima ligação
entre voz, poesia e música. Pouco a pouco, a intérprete
amadora, estudante de Comunicação Social e com ambições
de fazer carreira na área do Jornalismo, começou a
desenvolver a sua técnica vocal e a levar muito a sério
a nova vocação. Tal como outros jovens músicos
que, desde meados dos anos 90, encontraram no fado a sua forma de
expressão, contribuindo para uma surpreendente renovação
da canção de Lisboa, Cristina Branco começou
a definir o seu percurso, onde o respeito pela tradição
caminha lado a lado com o desejo de inovar.
Se nada na vida de Cristina indicava que o seu destino seria o
fado, temos hoje de admitir que Cristina Branco está a criar
um estilo: um grupo tradicional (voz, guitarra portuguesa, viola
e viola-baixo); uma voz simultaneamente leve, quente e sentida;
uma mistura de fados tradicionais, temas próprios e canções
populares, sempre com o cuidado de escolher as palavras dos melhores
poetas portugueses.
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